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19 de novembro de 2013

Esquenta!

Discordo da opinião de Marcos Sacramento, no artigo "O ESQUENTA" O programa mais racista da TV Brasileira (http://www.blogdomael.blog.br/2013/08/o-esquenta-o-programa-mais-racista-da.html), de que o mesmo ajude a construir um estereótipo racista. Acho, ainda, um desserviço transmitir essa leitura errônea do programa por meio das redes sociais, algo que só se presta a polemizar e não a esclarecer. Muitas pessoas, por certo, embasadas nessa leitura, serão induzidas ao erro de concordar com o autor. Afinal, há mesmo muitos negros no programa. Conforme descrito, há muitos "dançarinos com cabelos bizarros, moças de shorts minúsculos e prosódias vulgares que nunca serviriam de modelo para capas da Marie Claire ou da Claudia"... A análise, no entanto, a meu ver, parte do princípio errôneo de qualificar essas características. Ao contrário do autor, que afirma ser o 'ponto X da questão', o fato de O programa "reforçar o estereótipo dos negros brasileiros como indivíduos suburbanos, subempregados, mas ainda assim felizes, sempre com um sorriso no rosto, esquecendo-se das mazelas cotidianas por meio da dança, do remelexo, das rimas pobres do funk, do mau gosto de penteados e cortes de cabelo extravagantes", eu não me proponho — e acredito que seja justamente este o 'ponto x' do programa — a quaisquer julgamentos.Para quem já se dispôs — despretensiosamente — a assistir a mais de um programa, fazendo uso da consciência crítica, fica nítida a oportunidade — sem precedentes — que ele abre na programação aberta da televisão, especialmente da Rede Globo, de realmente colocar 'tudo junto e misturado', como deve ser, em qualquer democracia de fato e de direito. Me espanta, na verdade, a disposição com que o autor, que informa no texto ser negro (como para reforçar sua autoridade em criticar), coloca as revistas Cláudia e Marie Claire, a música clássica e os livros (em detrimento às relações sociais) como referenciais de comportamento. Dá um tiro certeiro no pé (a meu ver) o autor quando diz: "Sou negro e não sei sambar, não pinto meu cabelo de louro, não uso cordões, não ando gingando nem falo em dialeto". São justamente esse olhar preconceituoso, essa voracidade de julgamento, latentes, que têm conduzido o ser humano ao mais profundo distanciamento da unidade (da visão sistêmica) e, consequentemente, mais próximo do desequilíbrio, do colapso.
É preciso pró-agir, pois a re-ação, quase sempre, nos condena a comportamentos nocivos. Quem me lê, acredita, por certo, ser eu uma fã do programa Esquenta. Não! Na verdade assisti duas ou três edições, em partes, por casualidade. Há um pensamento predominante, típico da sociedade hipócrita, que associa o programa a algazarra, ao gueto, a vulgaridade, ao brega. E eu não pensava diferente disso. Ocorre que depois de ter me permitido ver e ouvir o que o programa tem a dizer, pude observar que ele vai justamente na contramão disso tudo. Cumpre o propósito bem definido de demonstrar que o diferente é apenas diferente, e nada mais. O fato de eu gostar de um tipo de música, de dança, de roupa, de expressão aetítica ou de comportamento social não me coloca em posição de julgar — inferior ou superior — outros tipos. Esse é o erro no artigo de Sacramento. Esse é o 'ponto' da questão. Está enganado o autor quando afirma: "E assim, aquela menina sentada no sofá vai continuar achando o máximo desfilar com pouca roupa e pelos das pernas pintados de loiros pela comunidade. Nunca vai pensar em aprender a falar alemão ou tentar entender os grafites de Banksy, da mesma forma que os rapazes nunca sonharão em trabalhar no Itamaraty e praticarão bullying contra os meninos polidos que não falam em dialeto e inventam de estudar violino, já que um programa televisivo de uma das principais emissoras do país legitima seu estilo de vida mal educado e de poucas perspectivas". Em primeiro lugar porque se coloca, indistintamente, na posição de juiz. Em segundo lugar porque faz diversos 'juízos de valores' equivocados. Em terceiro lugar porque propaga a desinformação. Chamar uma legítima expressão cultural de "estilo de vida mal educado e de poucas perspectivas', é olhar o mundo de um prisma muito particular e reduzido. Depois, nas oportunidades que tive de assistir ao programa, vi sempre colocadas - lado a lado - as diferenças (regras de etiqueta;orquestra sinfônica; música sertaneja, a 'poesia musicada' do Gabriel Pensador, etc), dando a qualquer telespectador a oportunidade de se identificar com o que melhor lhe aprouver. Penso que quando o ser humano parar de atribuir ao outro, a televisão, a educação, a escravidão, a colonização, a religião, etc, a responsabilidade pela sua evolução, pelas suas escolhas, pelo seu comportamento, pela sua Ação, por certo, viveremos num mundo melhor, repleto de pessoas que realmente saibam se respeitar e conviver harmoniosamente. Por fim, se "a dança, o remelexo, as rimas pobres do funk, o mau gosto de penteados e cortes de cabelo extravagantes", forem realmente capazes de fazer esquecer as mazelas cotidianas, de estampar sempre um sorriso no rosto e tornar as pessoas felizes, deveríamos TODOS repensar nossos costumes. 
Mentes e corações abertos para uma nova era de compreensão minha gente!!!
Abs
Yara

18 de fevereiro de 2013

Verdade seja dita


Comentário da apresentadora Neila Medeiros revoltada com a declaração do Secretário de Obras de Luziânia. Ele afirmou que a imprensa atrapalha o trabalho deles.

  
Todo ano a mesma coisa. Os noticiários repletos de informações de desgraças por causa das chuvas. São casos de gente morrendo soterrada, gente perdendo tudo com enxurrada, gente ilhada... Gente com frio, fome, doente. Gente sem roupa, sem água, sem nada. Geeeente... E ninguém faz nada!

As cenas chocam, assustam, emocionam, mas não passam disso... Cenas a mais de uma velha história re-contada. A verdade é que enquanto não acontece com a gente ou com alguém muito próximo de nós, são apenas imagens que ilustram um tipo de sofrimento que não reconhecemos como nosso. Afinal, os nossos já nos bastam não é mesmo, para que viver o dos outros?

Nem eu, e nem muitos que estão lendo este texto neste momento, são capazes de imaginar o que é ser um "sobrevivente" das chuvas.  E se por um lado a palavra é linda porque remete a resistência de alguém que permanece vivo - apesar de algo ou alguém -, por outro, também está muito próxima da crueldade da vida que, muitas vezes, lança o homem às sobras e às sombras...

Olhando para minha casa seca, segura e com todos os bens adquiridos para ela em seus devidos lugares, dificilmente saberei o que é ter tudo levado pela água. Dificilmente entenderei o que é olhar ao redor e ver tudo cheio de lama, apenas um rastro sujo do que foi um dia... E, certamente, muitas dessas pessoas, jamais conquistarão novamente o que perderam. Outras levarão muitos anos trabalhando para ter novamente direito a algum conforto na vida.

Olhando para meu marido e minha filha, vivos e felizes, jamais entenderei a dor de quem perdeu alguém levado ou soterrado pelas águas... Estas pessoas nunca mais verão uma chuva cair da mesma maneira. Estas pessoas, nunca mais vão assistir o noticiário de janeiro, sem sentir a mesma dor daqueles que estão lá. 

Não deveria ser assim, mas se é preciso sentir na pele o aprendizado, para que as mudanças ocorram, então vamos dar poder de ação e decisão para essas pessoas. Transformá-las em agentes comunitários, assessores, vereadores e o escambau para que seja feito realmente algo útil. Quem sabe assim, se elas não se corromperem, ano que vem essa 'maldita' história seja outra e a imprensa tenha que caçar outras notícias para dar. 

Não que as chuvas sejam culpa de alguém, afinal as intempéries da natureza e da vida sempre existiram e não vão mudar. O volume das chuvas seria outro se as ações do homem fossem outras? Pode ser que sim e pode ser que não, essa é outra história. Mas para mim, se há culpa nisso tudo, ela está exatamente onde sempre esteve, na conhecida (des)humanidade de não se querer cheirar, não se querer tocar, não se querer ver e, muito menos, sentir o que não convém.
13 de Janeiro de 2012

Mas não se irrite



Acidentalmente, descobri que sofro de um mal (nada) súbito. Chama-se (na terminologia yarédica) “Irritadicium Plenium”. Digo acidentalmente porque, no pleno exercício de minhas faculdades, obviamente, jamais constataria ser eu, “esse ser tão calmo”, uma pessoa irritada - ao extremo -, diga-se de passagem.
Observaria, talvez, que “as pessoas ao meu redor sofrem de sérios distúrbios comportamentais” e constataria, no mínimo, que elas “insistem em se fazer notar pela inconveniência”. Acontece que, acidentalmente hoje, um fio desencapado do destino resolveu eletrocutar a minha vida.
Tudo começou com uma noite mal dormida. Em seguida, vieram uma manhã sem café da manhã, um relógio que andava rápido, mas sem sair do lugar, e uma longa lista de afazeres antes da primeira garfada. Pronto! Estava feita a M do dia... Daí por diante, tudo se resumiria a descompasso...
Uma fulana qualquer no trânsito, atormentando por uma seta não dada e (aff), hajam impropérios. Uma vergonha só. Mal humor contínuo. Filas de bancos, lotéricas e carros, muitos carros, biiiiiiiiiiiii. Uma farpa no dedo, um cisco no olho. Um 0800 pra ligar. Qualquer tentação é motivo para franzir o cenho e maldizer o dia, o outro, a vida. Oh, Céus!
Quem inventou frases do tipo: “subiu o sangue”; “saltaram as veias”; “os nervos estavam à flor da pele”, sabe a que grau Celsius se chega num momento desses.
E há ainda sempre um apaziguador por perto para dizer “Tenha calma”, como se oferecesse um copo d´água com açúcar. Ora meu amigo, o senhor, que é calmo, é que faça o favor de se irritar. Deixe-me em paz com a minha cólera! Não vou assassinar ninguém, só quero esbravejar um pouco...
Nada que um prato de miojo e o merecido desmaio no sofá no fim do dia – sem novela -, não possam resolver. De madrugada eu penso em banho ... Afinal, já é outro dia.

30 de Agosto de 2011

23 de agosto de 2012

20 vereadores bastam?


Olá,
Como não estamos neste mundo a passeio e sim a trabalho - o contínuo trabalho de evolução - gostaria de compartilhar uma reflexão importante com quem estiver disposto a ler.
Meu pai, Fernando Racy, foi vereador em Ibitinga-SP nos anos de 1996 a 1999, e possui, na minha opinião, uma visão acertada sobre a função do vereador.


Conversando sobre campanhas do tipo da "20 vereadores bastam", realizada em Ribeirão Preto, que surgiram e se espalharam via 'spam' por todo o país, ele mostrou um outro lado da questão que eu não havia raciocinado.
Eis seu e-mail sobre o tema:

Boa tarde!
Não, não concordo com esta “ideia”. (de menos vereadores)
Ela traz em seu bojo um profundo desconhecimento da democracia e da administração pública.
Além de ser campanha por um equivocado retrocesso.
Explico!
Mais vereadores não significa em hipótese alguma, “mais gastos” do município.
Pouca gente sabe disto, mas o orçamento anual das Câmaras Municipais é TOTALMENTE independente daquele do Executivo (Prefeitura).
E, na maioria dos municípios brasileiros, corresponde a 5% da arrecadação do município.
Assim sendo, sob o ponto de vista econômico, tanto faz uma Câmara ter 5 ou 20 vereadores, o orçamento anual será o mesmo.
Menos vereadores significará MAIORES VENCIMENTOS para cada um (vereador não tem salário, é agente administrativo e não funcionário público; assim o número de horas que ele “trabalha” por semana é indiferente; o q se deve avaliar é a sua ATUAÇÃO como fiscal do Executivo e como Legislador).
Pessoas inteligentes e esclarecidas, professores, etc., deveriam lutar – isto sim – para q fosse reduzido o percentual da arrecadação a ser destinado ao Legislativo.
Por exemplo, se a legislação fixasse num máximo de 4% da arrecadação o orçamento da Câmara, isto diminuiria em 20% ao mês o “desperdício” de recursos públicos com o Legislativo.
Dá para entender, onde esta a verdadeira origem do problema?
Por outro lado, sob o ponto de vista estritamente político, quanto maior o número de vereadores numa Câmara, melhor para a DEMOCRACIA.
Uma câmara de 9 vereadores é facilmente dominada pelo Prefeito. Bastam 5 apoiando-o e ele já tem a maioria do Legislativo.
Com 17 ou 19 vereadores na Câmara de um município pequeno – entre 5 e 150.000 habitantes, por exemplo, a oposição sempre fica mais fortalecida.
A manipulação do Legislativo pelo Executivo, fica dificultada.
E Executivo sem oposição chama-se ditadura.
Dá paras entender isto, também?
Em resumo: a questão não é mais ou menos vereadores na Câmara, ou presidencialismo, ou parlamentarismo.
A verdadeira questão é VERGONHA NA CARA.
Isto falta muito, à enorme maioria dos nossos políticos e em maior dose, ainda, aos eleitores que os elegem.
Se alguém tiver uma visão mais elucidativa sobre o assunto, estou sempre aberto a aprender. Coisas sérias, não palavras de ordem vazias lançadas ao vento por interesseiros de plantão.
Na verdade, quem quer menos vereadores nas Câmaras são os carreiristas da política. Assim sobra mais para eles!

...
A conversa com meu pai sobre esse tema foi bastante elucidativa. (me senti uma topeira)
Mostrou como a falta de reflexão nos remete ao erro. Posso dizer por mim – e creio que pela maioria da minha geração – que não fomos habituados ao exercício da reflexão a fundo sobre os temas. Acostumados que fomos a receber tudo mastigado, buscamos/ reivindicamos tudo – quase sempre – com uma visão distorcida da realidade.
Nesse caso, portanto, ao invés de batalhar-se pela diminuição do número de vereadores, deveria-se propor a diminuição do orçamento da Câmara, até porque, ainda segundo meu pai, a Constituição prevê um número mínimo e um número máximo de vereadores de acordo com a população do município. (entre 9 e 31, segundo disse meu pai, mas essa informação precisa ser confirmada e atualizada por um profissional da área).
Os mecanismos de defesa econômica, política e social, portanto, estão garantidos em nossa lei maior (basta-nos saber aplicá-los tão bem quanto os inescrupulosos...)
Topeira que sou, ainda questionei meu pai:
- Mas em Ribeirão, por exemplo, o dinheiro que sobra do destinado à Câmara é usado para auxiliar projetos sociais e devolvido à prefeitura...
Ao que ele respondeu:
- Mas isso não é função do legislativo! A função do vereador é FISCALIZAR as ações do executivo e CRIAR LEIS.
Vai brincando com quem entende...
Em resumo, para mim ficou a lição de que é preciso ir ao cerne das questões, evitar as distorções e buscar a renovação na origem dos problemas e não apenas reivindicar soluções paliativas. Precisamos estudar os temas a fundo, entender seus mecanismos legais e sociais, antes de confeccionar os cartazes. Esse precisa ser – antes de tudo - um exercício individual... De se inteirar dos fatos e não das evidências, de se construir a opinião própria e não ser levado pela dos outros... Nesse caso, por exemplo, diante das afirmativas de meu pai, o passo correto a ser dado seria estudar o tema, pesquisar se conferem as informações, para só então assinar embaixo... Entende!??!?
E acredito que, acima de tudo, o principal seja buscar na contradição das opiniões o meio termo capaz de renovar com inteligência e humanidade!
Por tudo isso, acredito que as manifestações em prol de mudanças sejam extremamente válidas. Precisamos realmente nos unir em torno de ideias e ações remodeladoras, mas a energia dispensada neste importante exercício de cidadania precisa estar legitimamente embasada e, efetivamente, conduzir à mudança dos paradigmas vigentes e a melhoria do mundo em que vivemos.

Senão é só trocar 12 por meia dúzia...

Obrigada pela atenção!

21 de agosto de 2012

Uma imagem vale mais que mil palavras


A tentação de "descer a lenha" diante dessa foto é grande...
Mas vamos nos ater simplesmente aos fatos, a fim de contribuir com o TODO, ao invés de julgar ou criticar, o que não leva a nada.
A emoção negativa diante desta imagem nasce do fa
to de ver duas figuras públicas - UMA EM EXPEDIENTE DO COMPROMISSO ASSUMIDO DE GOVERNAR O ESTADO DE SÃO PAULO - tomando um trem - EM ÉPOCA DE CAMPANHA - com a única finalidade de promoção. De fato, o gesto de ambos nada tem a ver com a análise das condições do transporte coletivo a fim de promover melhorias, senão isso seria feito outras vezes, em horário de pico, e fora de período eleitoral...
De fato, o cidadão comum, este que toma diariamente trens lotados, está farto desta postura amoral por parte de pessoas que se julgam qualificadas a gerenciar o patrimônio público.
De fato, é tempo de se repensar a forma de se fazer política no Brasil. Foi-se o tempo do lúdico. O brasileiro merece governantes VERDADEIRAMENTE COMPROMETIDOS COM O BEM COMUM.
Vivenciar as dificuldades realmente amplia a visão sobre a urgência em solucioná-las. Mas não é en passant que se vivencia o drama diário da superlotação... Esse tipo de atitude só pode demonstrar despreparo e desrespeito. Espera-se, afinal, que este país seja capaz de encontrar senão nesta, nas próximas gerações, pessoas verdadeiramente sensíveis a necessidade coletiva, que mesmo tomando carro ou helicóptero diariamente - em função de seu COMPROMISSO em gerenciar o que pertence ao TODO, sejam capazes de enxergar a necessidade dos demais em também se locomover com agilidade e conforto. E O FAÇAM!
De fato, é isso minha gente que essa imagem demonstra: a necessidade de renovar o pensamento, renovar os gestos, renovar as ações, renovar os sentimentos, renovar, refazer... RENASCER uma nação de homens verdadeiramente bons!

Obrigada pela atenção.


(foto Apu Gomes/Folhapress) 

26 de abril de 2011

Carta a uma colega de profissão


Sobre erros e acertos

Existem erros indesculpáveis, mas nenhum é imperdoável. Ou estaríamos todos condenados a uma existência mísera, improdutiva e inerte.

Onde estariam a justiça e a misericórdia Divina se os homens não pudessem recomeçar, reconstruir, refazer, remodelar, readequar, reaprender? Onde estaríamos eu e você, que cometemos erros desde a infância, se não houvesse pelo caminho quem nos tivesse dado outra oportunidade? Quem tivesse acreditado em nossa mudança e nos proporcionado novas chances para nos redimir e evoluir?

Certa vez, quando ainda cursava o antigo ginásio, me envolvi com a política estudantil. Muito mais influenciada por meu pai do que propriamente ávida por ocupar qualquer cargo, mas na verdade acabei “embarcando” na idéia, me divertindo em fazer campanha e, por fim, me elegendo como presidente da chapa  intitulada “Reconstrução”. Uma loucura da qual tenho poucas lembranças. Mas o que mais me marcou, realmente, foi o que se seguiu.

Pouco tempo depois de eleita fui apanhada “colando” em uma prova de História. Uma vergonha! Um despropósito” Um descalabro! A representante maior dos estudantes cometendo tamanha desfaçatez. Meu mundo desabou... Podem imaginar o “buxixo”. Pior foi o desapontamento de meu pai, que para me ensinar uma lição, fez com que eu pedisse à professora para refazer o teste, só que desta vez como prova oral.

Me lembro da sensação de orgulho de mim mesma, por ter conseguido um "A" sem precisar colar, apagada pela vergonha de estar ali em pé diante da classe, me desculpando por ter optado pelo caminho mais fácil quando tinha capacidade de realizar o correto e, acima de tudo,  quando deveria ser um exemplo de conduta para todos os alunos...

(Essa questão do exemplo aflige, ainda mais quando se é mãe, pois constantemente somos colocados à prova e, frequentemente, nos sentimos traídos por nós mesmos.)

Mas assim como esse episódio houveram outros pelo caminho. Certa vez, fuçando nas coisas de meu pai em seu escritório apertei o botão de um gravador e depois não soube desligar. Chamei meu irmão mais velho para ajudar e achei que tudo ficara resolvido. Detalhe: havia apertado o “REC”. E com tudo ali, gravado, não restou outra alternativa para meu pai senão me obrigar a escrever um caderno inteiro de caligrafia com a frase: “Não devo mexer nas coisas dos outros.”

Essas lembranças me marcaram e, ao mesmo tempo, deixaram algo bom: um norte a seguir na vida. Assim, embora muitas vezes ainda escorregue nas lições aprendidas, afinal sou um ser humano e não uma máquina, ainda assim, procuro ser um exemplo de boas atitudes, para mim mesma antes de tudo. Até porque, pior do que a figura de meu pai me corrigindo é a voz da minha própria consciência me cobrando.

Agora imaginem outra situação. Se a professora não tivesse me dado a oportunidade de refazer a prova, para tentar ao menos redimir meu erro, o que eu teria aprendido? Poderia ter reprovado aquele ano ou recuperado a nota nas próximas provas, seja como for, com o tempo eu esqueceria, a professora e os alunos também e tudo não passaria de mais uma “travessura de criança”.

Seria, portanto, muito natural para mim, hoje, aceitar e conviver com as notícias de corrupção que escandalizam quem tem brio, afinal, eu teria passado incólume pelo desvio de caráter. Felizmente, tive quem soubesse me conduzir ao verdadeiro vexame de meu ato e quem tivesse me permito submergir dele alguém um pouco melhor.

Tudo bem que naquela época ainda podia ser considerada uma criança, mas não há desculpa para o que é errado, seja qual for a etapa da vida. É importante destacar nossos erros sempre, de alguma forma, para que eles não se tornem o destaque de nossa existência.

Também é preciso perdoar quem erra e dar-lhe nova oportunidade para se testar, se corrigir, se redimir e evoluir. Isso por uma razão muito simples: ninguém é perfeito, e se nunca errou, nem está errando nesse momento, ainda vai errar um dia e, portanto, vai precisar do perdão de alguém. Mas a vida se encarrega disso...

Eu, cá com meus botões, continuo aprendendo. Constantemente a vida impõe situações para testar meu discernimento sobre os erros e os acertos – tanto os meus como os dos outros -, mas posso apenas responder por mim. Às vezes passo no teste, outras vezes sou reprovada.

É assim que funciona. Uma hora a gente se orgulha outra hora se envergonha. Uma hora a gente chora outra a gente sorri.

Só há uma alternativa...  Continuar caminhando!

Postado em 26 de Abril de 2011 às 15:04 na categoria Pausa e Ponto do blog Retalhos

Para não passar em branco

Esta semana, mais uma vez, assistimos horrorizados a notícia da morte de uma criança. Desta vez, a menina Lavínia Azeredo, de 6 anos, asfixiada com o cadarço de um tênis pela amante do pai. Digo mais uma vez porque não são poucas as notícias de morte de crianças por violência doméstica ou sexual, maus tratos, negligência ou acidente. Na semana passada acompanhamos emocionados o resgate da menina Crystal da Silva Cardoso, de um ano e dois meses, que ficou submersa por 20 minutos no Rio Morto, depois de um acidente de carro, mas conseguiu ser reanimada pelos bombeiros. No dia seguinte veio a notícia de que ela não resistiu.

Dias antes,  a menina Letícia Lima dos Santos, de 6 anos, fora esfaqueada e estuprada em Frutal (MG). Em Brasília, no início de fevereiro, a menina Daniela Camargo Casali, de dois anos e sete meses, morreu afogada durante a aula de natação na piscina do colégio onde estudava. Três dias antes, em Tefé (a 525 quilômetros de Manaus) um menino de um ano de idade (seu nome não foi divulgado) morreu carbonizado em casa, enquanto seus pais estavam em uma festa.

Isso para falar de casos noticiados em pouco mais de um mês. No final do ano, houve o caso da menina Stephane dos Santos Teixeira, de 12 anos, morta após receber vaselina na veia em vez de soro. Aqui mesmo, em Ribeirão Preto, Maria Cecília da Silva, de seis meses, morreu afogada em um balde com água utilizado para umidificar o ar, que estava ao lado da cama em que ela dormia, no mês de setembro. Um caso semelhante já havia ocorrido em outubro de 2009, quando outra criança, esta de quatro meses, também morreu afogada em uma bacia ao lado da cama.

Enfim, uma sucessão de fatos – tristes, muito tristes - que não podem ser ignorados. Na correria da vida fica difícil refletir com profundidade. A gente assiste ou lê a respeito, se emociona, chora, lamenta ou se revolta, até se coloca no lugar dos pais e é capaz de sentir a sua dor. E então segue o curso da vida... Um dia após o outro. Como se não fosse conosco. Até o dia em que um pesquisador lança os resultados de um estudo com as razões científicas para o aumento do índice de mortes de crianças. Pronto! Está explicado. Até o dia em que um historiador, lá no futuro, escreve sobre a razão pela qual a humanidade deixou de se importar com suas crianças, de se incomodar com a sua morte...

Mais qual sentido é este?  O que está acontecendo? Os pais não amam mais seus filhos, não zelam mais por eles, a vida está muito difícil, muito corrida, é preciso ganhar o sustento das crianças e, por isso, não há tempo para cuidar melhor deles, os seres humanos estão voltando às origens e se tornando selvagens, o “fim do mundo” está próximo? Afinal, alguém pode responder?

Vamos pensar juntos à respeito, para que esperar a próxima notícia. Vamos conversar, polemizar, teorizar. Definitivamente, vamos fazer algo. Sem politizar. Apenas porque sou mãe, e você também, ou é um pai. Apenas porque somos seres humanos e podemos – sim – pensar e agir diferente.

No dia 29 de março serão três anos da morte de Isabella de Oliveira Nardoni. Só mais um dia de dor para os que a amavam. Assim como tantos dias para tantos outros... Mas esta dor, embora não estejamos atentos, também é nossa.

Pense, comente!

Informe-se:
Violência contra criança é maior que estatísticas

Postado em 04 de Março de 2011 às 17:03 na categoria Pausa e Ponto do blog Retalhos

Questão de ordem


Esta semana a imprensa escrita e televisionada noticiou a agressão de uma mulher a um funcionário de posto de saúde, pela demora no atendimento, o que resultou na suspensão temporária das atividades na unidade. Questão de ordem: falta segurança nos postos de saúde, falta segurança ou falta saúde? Falta humanidade no atendimento aos doentes ou na remuneração e condições de trabalho dos atendentes? Todas questões muito batidas... Pouco interessantes para quem não precisa sentar o bumbum em um banco duro ou esperar em pé, durante horas, por um atendimento médico. Igualmente irrelevantes para quem por sorte ou por escolha se distanciou da simplicidade dos ambulatórios públicos. Tão batidas que nem vale à pena falar. No correr das horas e das lamúrias, para que falar dos mal pagos, dos mal humorados, dos mal educados? Vivamos, cada um, nossas próprias mazelas e vamos falar de flores, de tambores, de jogadores... Não é mesmo assim?

Postado em 11 de Fevereiro de 2011 às 12:02 na categoria Pausa e Ponto do blog Retalhos

5 de maio de 2010

Ontem, hoje e amanhã

Ontem só um dia
Hoje nada mais me resta
Amanhã nem sol, nem água, nem frio...
Ontem foi uma manhã gostosa,
A filha pequena no colo
O sabor do almoço tarde com a família...
Hoje o amargo dissabor da vida
Um à parte no trabalho
A certeza da leviandade alheia
Amanhã um novo dia para preencher na página em branco da vida
Uma oportunidade nova de fazer direito, recomeçar
Um dia a mais para ser eu, pensar como eu e agir eu
Um dia a mais para me reescrever...
E, quem sabe, acertar então
Ontem passou,
Hoje já era
Amanhã... Nem sei.

23 de abril de 2010

É assim...

Vi hoje a indiferença dos homens,
Uma velha e uma criança, ambos maltrapilhos, perguntavam à porta de uma loja por um endereço qualquer...
E era como se dissessem:
- Você pode me ver?
Mas as pessoas passavam, cegas...
Olhos vendados, almas vendadas...
Passavam apressadas, como quem vai perdido, sem rumo.
Perdidas na própria indiferença...
E a velha pôs-se a caminho lamentando:
- Eles nem respondem, nem olham...
Como se não olhar diminuísse nossa culpa.
Como se olhar e responder fosse suficiente.
Era preciso mesmo é que aquela criança não fosse a velha de amanhã...
E assim são as relações humanas...
Tão indiferentes, egoístas...

30 de setembro de 2009

Desabafo

O mal do mundo é a ignorância.
Aliada fiel da falta de caráter e de coragem, essas verdadeiras ervas daninhas da alma humana se propagam assustadoramente...
Para vencer esse verdadeiro "mal do século", seja honesto consigo mesmo - em primeiro lugar.
Quando tiver algo a dizer não se cale, acredite e lute por suas opiniões, mas defenda-as diante de seus interlocutores e não pelas costas, às escondidas como um Judas.
Seja franco! Escancare a boca e bata no peito para dizer o que pensa, defenda seu direito de pensar, gesticule, grite se for o caso, xingue e esperneie, mas que seja de frente, como um ser consciente de suas certezas.
Dê o bote certeiro de sua opinião, afinal o pensamento é livre, não é exclusividade de ninguém e a diversidade existe para equilibrio do Universo.
Mas não haja como um rato ou uma barata, esses seres rastejantes que ficam pelos cantos, às escuras, agindo de forma destrutiva à revelia da defesa alheia.
Não caia nessa "teia de aranha" chamada ignorância.
Seja firme em seus posicionamentos diante de todos e não haja pelas costas de ninguém, maldizendo o íntimo que desconhece.
Dê aos demais o tratamento que deseja para si próprio, respeitando, acima de tudo, o direito individual ao pensamento.

18 de julho de 2008

O asno enfurecido

Não basta mais não meter os pés pelas mãos minha gente.
É necessário agora, também, não meter mais a mão na buzina.
Outro dia, no trânsito, um asno disfarçado de gente guiava, na faixa esquerda, sua enorme e poderosa 4x4 preta, quando deu-lhe de veneta jogar-se sem dó, piedade ou pisca-alerta ligado, para a direita.
Lançou-se o infeliz, de forma brusca e estúpida, sobre minha humilde Biz 125 (também preta, ora bolas) que trafegava rápida e tranquilamente em sua faixa, subjugando-me como um elefante a uma formiga, de maneira a não deixar-me outra alternativa senão extravasar minha revolta METENDO A MÃO NA MALDITA E ESTRIDENTE BUZINA da motocicleta.
E para que não restasse dúvidas ao pustulento de sua extrema indelicadeza (ainda mais tratando-se do quase assassinato de uma pobre donzela indefesa montada em seu cavalo negro pós moderno), eis que estendi-lhe o dedo médio, de forma bastante significativa. Tão compreensível quanto qualquer simbologia de placa de trânsito.
Para quê!
O que assitiu-se a seguir só não foi "O triste fim de Policarpo Quaresma", porque postou-se ao meu lado: de armadura, escudo e espada na mão, o meu pobre e franzino Anjo da Guarda.
Não é que o asno enfureceu-se com tamanha desfeita dessa impulsiva tartaruga e pôs-se atrás dela a xingar-lhe de "biscate"?
Creiam, com todo seu porte, não lhe restou um só neurônio que sobrevivesse à ofensa.
Com a vaidade ferida, vivendo o auge de seu orgulho, cego à sua tacanha inteligência, não pôde mais conter a burrice dentro de si...
Freou furioso o 4x4 ao meu lado e relinchou:
- Ultrapassa pela esquerda, "biscate", da próxima vez passo por cima.
Sendo absolutamente inútil ponderar com um asno que "tamanho não é documento" e que moto paga tanto (ou mais) IPVA e Seguro Obrigatório, por também ser condução, merecendo, portanto, tanto respeito quanto qualquer outro veículo no trânsito, restou-me apenas responder: - Então passa, "cuzão"!
E sair correndo, é claro.
Afinal tartaruga é lerda, mas não dá mole não.

Bem vindos

Bem vindos, ilustres desconhecidos, ao picadeiro de meus pensamentos.
A quem interessar possa, não dobre essa esquina, em caso de fossa.
Ponto de angústias, sátiras, críticas e reflexões, este circo me pertence.
E não o recomendo a cardíacos, nem depressivos.
E não o dedico, a outro quesito, senão desopilar.
Dane-se o resto, aqui mando eu.
Furto as palavras que quiser...
E não me calo.
Não me censuro ou hesito.
Não dobro a língua, de jeito nenhum!No mais, sintam-se em casa.